O projeto “Chuva, Afeto e Saudade | Margens” tem sua origem em 2011 quando meus tios Sofia e Eduardo Haberland, pais do Kiko Haberland, pediram-me ajuda para unir os textos criados por ele em uma publicação. Comecei, então, a interagir com os escritos e a entrar no universo ali apresentado. Em maio de 2012, em Gladenbach (Alemanha), fizemos juntos, Kiko e eu, os primeiros estudos do que poderia ser a união dos textos dele com imagens minhas, em uma criação conjunta. Sem pressa, buscando prolongar as trocas, o projeto começou a ser desenhado.

Deficiente físico, tendo grande parte dos movimentos comprometidos em consequência de um acidente que sofrera aos 9 anos, Kiko escrevia, ora em textos mais diretos, ora mais poéticos, sobre sua forma de olhar o mundo, a vida na Alemanha, a condição física, as pessoas importantes e queridas, os amigos e a família, as fantasias e os sonhos.

Inesperadamente, em setembro de 2013, aos 38 anos, Kiko faleceu em Gladenbach.

Nas semanas seguintes trabalhei neste projeto movida por um sentimento de urgência. Urgência pelos meus tios, pela vontade de entregar a eles a materialização de uma criação do Kiko; e também por mim, que usava essa materialização como um mecanismo para enfrentar a estranheza da perda.

Reli inúmeras vezes os textos e criei nesse período as imagens presentes do livro ‘Margens’. Muito mais do que a organização dos escritos, o que se estabeleceu ali foi uma reação artística minha à produção do Kiko. Precisando caminhar sem mais contar com as trocas e opiniões dele, e enfrentando tantas novas camadas incorporadas à experiência depois de sua morte, segui tendo as criações do Kiko como chaves para que eu mesma pudesse encontrar, em mim, os assuntos tão presentes nos escritos: sentimentos de liberdade e opressão, limites entre os mundos externo e interno, medos, desejos, amores.

O resultado desse processo é apresentado em 2 volumes: ‘Chuva, Afeto e Saudade’ e ‘Margens’.

O primeiro deles ‘Chuva, Afeto e Saudade’ contém todos os textos do Kiko, escritos ao longo de sua vida. A edição foi feita por mim. Pretendo com ela traçar um caminho que vai dos assuntos mais externos e objetivos – como quando o Kiko fala das cidades ou da chuva – passa pelos textos em que ele trata do corpo e da limitação física e, como se atravessasse uma barreira, chega ao universo mais íntimo, às criações e aos sonhos que o faziam viver.

O momento em que se atravessa a barreira, ou se passa para a outra margem, da forma como coloco aqui, é símbolo de diferentes passagens. É, em primeiro lugar, aquele momento em que, na edição, entra-se no mundo mais interior do Kiko e pode-se visitar seu universo de desejos, personagens inventadas e novas formas de amor. É, também, numa segunda abordagem, o momento da aceitação, por ele, de sua condição física e de sua realidade, o que permite que as fantasias e sonhos se estabeleçam de forma tão legitimada. Como terceira passagem, nós, como espectadores da criação do Kiko, vivemos a descoberta de que é possível estabelecer um canal de comunicação e perceber a existência presente em um corpo que não se comunica das formas mais conhecidas ou naturais.

O segundo volume ‘Margens’ contém fragmentos de alguns dos textos do Kiko e as imagens criadas por mim logo após sua morte. Traz nos traços, palavras e carimbos essas minhas passagens, minhas percepções sobre o mundo do Kiko, e as experiências dentro do meu mundo, provocado pelo dele.

As imagens – cujos originais são impressões fine art e carimbo sobre papel – têm como base fotografias estereoscópicas feitas pelo nosso trisavô italiano Giulio Rebuschini. Ele era pai de nossa bisavó Vittoria Rebuschini, esposa de nosso bisavô Domenico Marchetti. Em fevereiro de 2013, em Cremia (Lombardia, Itália) com meus pais, recebemos de Sonia e Pietro Bregani, que são hoje proprietários da torre que pertenceu a Domenico Marchetti, uma caixa com materiais dele – mapas, fotos de família, cartas e os negativos em vidro das imagens estereoscópicas de Giulio -, fragmentos de nossas raízes comuns.

Nossa avó, Francisca Marchetti, também italiana, filha de Domenico Marchetti, veio para o Brasil ainda criança, na década de 1920. Teve cinco filhos: Elena, Sofia (mãe do Kiko), Enrique, Eduardo e Domingos (meu pai). O pai do Kiko, Eduardo Haberland, é descendente de alemães. Em 2005, o Kiko mudou-se para Alemanha em busca de melhores tratamentos e uma vida mais confortável.

Sei que não apenas a possibilidade de uma forma de comunicação como a escrita, mas principalmente o contato com seu próprio mundo e o respeito por ele, foram possíveis ao Kiko porque ele teve sempre por perto pessoas dispostas a amá-lo e a olhá-lo em profundidade, acolhendo, respeitando seu universo e seus sonhos.

É com muito amor que finalizo e apresento esse trabalho. Sei que ele era parte dos sonhos que tanto ajudaram o Kiko a viver.

30 x 23cm, impressão com pigmento mineral sobre papel de algodão, carimbos