Strange Fruit Projectatividade 2 – 2012

Este texto é um dos resultado de um intercâmbio artístico entre alunos brasileiros de Marcelo Greco e alunos europeus de Leo Divendal, realizado em maio de 2012 em Amsterdã, Holanda. O tema sugerido ‘Influências, Inspirações e Trocas’ oferecia um desafio composto pela análise das inspirações e influências individuais e pela forma como estes estímulos e símbolos são traduzidos em obras de outros artistas, permitindo as trocas entre os participantes e o surgimento de criações coletivas.

O ‘estranho’ era a essência do projeto, inicialmente em todas as abordagens, a fim de expressar nossa relação com a cultura e entender nosso ser como parte dela.

Este texto foi escrito como uma resposta poética ao ensaio de autorretratos de Flávia Tojal

 

Marcas

Onde ficam nossos segredos, mistérios e fantasias? Quem sabe de tudo o que fomos, dos nossos amores, do que vivemos? Alguém guarda meus sonhos? Alguém pode, por favor, guardar meus sonhos? Bem guardados, amarrados com uma fita.

Será que tem em mim pelo menos parte da menina que fui? Ela conheceu gente especial que já não conheço. Aprendeu tantas palavras com meu avô. Será que ele me reconhece agora, quando escrevo? Quando ainda sou menina, acho que resgato seu amor.

Se ainda sou menina, a mulher surge como um encanto. Inocente, em meio à névoa, com a delícia e a beleza do mistério.

Tem horas que parece que ela vem mais forte e decidida. Alguém viu? Acho que não, eu estava sozinha, estava em casa, consegui controlar, não deixei ela escapar.

Lembro dela tentando conquistar meu pai. Como ela era?

Vou tirando as camadas que me cobrem, as cascas, as máscaras. Nua posso brincar com minha própria existência. Posso renascer, começar de novo.

Será que dessa vez alguém viu a mulher? Ainda posso cobri-la com a mão, e sou eu que escolho o quanto mostro da imagem. Li que para a maioria dos índios existe uma só palavra para imagem, alma e sombra. Será que posso mesmo escolher o quanto mostro da minha imagem, da minha alma, da minha sombra?

Na nossa sombra mora aquilo que nos recusamos a admitir, mas que teima em se impor. Essência sutil dos seres. Mora aquilo que não controlamos. Se eu fechar os olhos, posso desconhecer minha beleza e minha força? Se eu enxergar, será que o mistério se perde?

Um dia desses sonhei com um morcego. Dormia em posição fetal, depois voava. Orientado até no escuro. Senti um incômodo nas escápulas, acho que consegui segurar as asas.

Se eu for, como faço pra não esquecer meus sonhos? Eu, que não me apego muito à história das coisas, que quero sempre voar e ser independente. Se eu deixar de ser menina, perco os amores que ela conheceu? Perco a inocência? E se eu perder o controle?

Tenho orgulho das minhas cicatrizes, são marcas da história, da infância, de um lugar que sabe de mim. A maioria delas eu fiz tentando voar.

Marks

Where do our dreams, mysteries and fantasies lie? Who knows about all we were, our loves, what we lived? Does anyone keep my secrets? Can someone please keep my secrets? Well kept, tied with a ribbon.

Is it possible she remains inside me, some parts of the girl I used to be? She knew special people, special people that I don’t know anymore. She learned so many words from my grandfather. Does he recognize me now, when I write? When I am still a girl, I think I can uncover his love.

If I am still a girl, the woman rises in me like an enchantment, innocent in the mist, with a mystery’s delicacy and beauty.

Sometimes she seems stronger and more resolute. Did anyone see? I don’t think so, I was alone, I was at home, able to control her, I didn’t let her run away.

I remember her trying to conquer my father. What was she like?

I keep taking off the layers that cover me, the barks, the masks. Nude I can play with my own existence. I can be born again, start again.

Did anyone see the woman this time? I can still cover her with my hands; it’s up to me how much is shown. I read that for most Indians there is a single word for image, soul and shadow. Can I really control how much of my image, my soul, my shadow, really shows?

In our shadow lives what we refuse to admit, yet it insists on imposing itself. Our creation’s hidden essence. There lives what we don’t control. If I close my eyes, can I ignore my beauty, my power? If I come to see, do I lose the mystery?

One day I dreamt with a bat. It slept in a fetal position, and then flew, knowing and even-moored in the dark. I felt it tweak in my collar bone; I think I was just able to hold the wings.

If I go, how can I not hold onto my dreams? Me, the one that doesn’t get too attached to history, the one who always wants drop the reigns and to fly. If I let go of being a girl, do I lose the love she knew? Do I lose the innocence? And what happens if I lose control?

I’m proud of my scars; they are marks of history, of childhood, of a place that knows me. Most of them come from trying to fly.