De manhã vi um rato. Entrou pela fenda no chão do banheiro. Vi só as patas e o rabo. Ele desceu. Mas ficou em mim, no meu pensamento, na aflição atrás dos meus joelhos, na nuca, nas mãos.
À tarde não voltei para casa. Tinha ainda o rato grudado na minha pele.
Entrei, desta vez eu, por uma fenda da cidade: Memoriae Majorum. Desci. Muito. Mais fundo que o rio. Mais fundo que o rio abaixo do meu rio. Dentro da terra. Ao mais profundo dos lugares só temos permissão quando vivemos uma de nossas mortes. Quando precisamos organizar essas memórias, as negras e cinzentas. É lá, na noite da matéria, que ficam nossos restos, antepassados de nós mesmos.
Entrei. Revivi minhas mortes nos corredores gelados, nas paredes feitas de fêmur, tíbia, rádio, ulna e caveira.
Esculpi, com meus ossos, minha nova morte. Estudei as formas, esbocei as várias vistas. Escolhi as peças. Determinei o espaço que a escultura precisava.
Chorei. Não vi flores. Não vi luz. Não vi água. Não ouvi música. Não dancei. Não ganhei abraços. Não vi ninguém por perto.
Voltei para a superfície, vazia de mim. Passei de volta pela fenda, fechei, costurei, fiz os pontos.
À noite a cicatriz ainda pulsa. Sei bem o que ela guarda. Conheço bem sua força.

Paris, 11 de outubro de 2015
(depois do rato e das catacumbas)