Foi pelo teu verso que te conheci.  Foi pelos teus versos que me apaixonei.

Te escuto em teu verso. Forte. Versos feitos de tempo. Terra seca feita de rastros. Vida depositada no fundo do leito do rio, sedimento das águas que correram.

Embaixo do rio, de dentro da terra, tento olhar para a superfície. Vejo o lodo, teus versos. Não vejo as águas correndo do outro lado, não me molho. São versos secos.

Não vejo as águas, matéria dos versos. Não vejo a vida correndo atrás. Vejo só o verso, abstrato, chapado, sem portas. Sei que há sempre uma realidade mais profunda naquele registro onde meu olhar pousa. Mas os versos são cegos.

Imagino as águas que correm do outro lado, doces, escuras, pesadas, amorosas. Teu lodo me protege. Teu lodo te protege. É no verso que mora tua força, naquilo que não tem forma clara. Teu verso-escudo.

Não me mostras tua luz. Ouço a música regida no escuro, música cega, sombras misturadas de um passado imprevisível. Versos mentirosos.

Teu corpo está repleto de lembranças.

Meu corpo espera nosso estranho amor enquanto eu finjo voar. Canto teus versos. Espero teus próximos versos. Me espero nos teus próximos versos.

Corres sem olhar para trás. Dizes que corres da vida. E me dás versos. Teus versos são feitos da nossa distância.

Sem medo e sem esperar coisa alguma, eu te espero. Vivo minha estranha liberdade, encantada pelos teus versos.

2015

35,5 x 25,4cm; aquarela 

inspirado na obra Verso de Marcelo Guarnieri